VOCÊ CONSEGUE FREAR SEUS IMPULSOS? - SILVIA MALAMUD
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Psicóloga, atua em seu consultório em São Paulo. Terapeuta
licenciada em EMDR, Brainspotting, Psicoterapia Breve e Psicoterapia de Casais.
Autora do livro "Projeto Secreto Universos" - silvimak@gmail.com |
EMDR - cura emocional em alta velocidade - pode ser a
solução
Ontem joguei o celular na parede e ele se espatifou! Outro dia fiquei
nervosa devido a uma situação mal resolvida peguei um vaso em minha casa (que eu
adorava) e o atirei no chão. Certa feita, durante uma briga no transito com um
motoboy que havia quebrado o espelho do meu carro, perseguiu-me e me xingou
exaustivamente, fiquei totalmente "cega", sai do caro, catei o motoboy pela
camiseta e comecei a estapeá-lo. No momento da ação fico enlouquecida e não
quero sair dela por nada nesse mundo, mas logo após agir de forma impensada
vejo-me correndo perigo.
Esses três recentes episódios foram o bastante
para que Cristianne decidisse lidar com suas atitudes impulsivas. Já conhecia o
EMDR por ser minha paciente e por ter se beneficiado por ele ao reprocessar uma
situação de luto mal resolvida.
Começamos com protocolo de
reprocessamento e Cristianne, desta vez, optou por movimentos bilaterais
sensoriais. A "foto" da imagem perturbadora representante de todo o pacote da
sua angustia em relação ao tema foi o episódio da briga com o motoboy.
Peço-lhe relatar minuciosamente o "flash" do momento do impacto e
Cristianne me conta que foi num susto quando se deu conta de que estava sentada
em cima do motoqueiro batendo violentamente em suas faces e, as pessoas a sua
volta berravam, sem parar, para o rapaz largar a moça... Neste instante o rapaz
reagiu avisando ser ele o agredido! A cena foi incomum provocando confusão nas
pessoas da rua para decodificá-la. Envergonhada, Cristianne parou imediatamente
de atacá-lo encaminhando-se para o seu carro, partindo em disparada.
Seus sentimentos em relação à cena foram de angustia, impotência e falta
de controle. Durante o desenvolvimento do procedimento e para iniciar o EMDR
elencamos alguns outros enfoques relevantes em relação a cena perturbadora e o
começamos.
Na primeira seqüência Cristianne observa a cena como se
estivesse simultânea e rapidamente ocupando tudo em vários lugares distintos.
Ora se via por cima do rapaz, ora via a cena como expectadora, ora estava
assustadíssima sendo espancada pelo motoqueiro. No segundo momento peço-lhe para
me contar o que estaria ocorrendo e ela revela detalhes, como se estivesse vendo
um filme em câmara lenta. Na próxima etapa relata que repentinamente pulou da
imagem com o motoboy para a do acidente de carro que havia tirado a vida de seu
irmão comemorando dez anos de idade naquela data.
Apesar de já ter
elaborado o luto pela perda do irmão, Cristianne agora rumava para outra questão
inserida no episodio do acidente. No caso especifico de Cristianne, por algum
motivo, sua mente entrou em contato com múltiplas variações de cenas e, de algum
modo, fizeram-na reviver o acidente. Lembrou-se de quando sua irmã que estava
dentro do carro na hora do acidente em sua companhia gritou que do outro lado da
pista um pneu havia se soltado de um ônibus e rumava em suas direções em alta
velocidade.
Pensa em sua mãe dirigindo o carro naquele momento e questiona o fato
de ela não desviá-lo da rota e o direcionar para o acostamento por proteção, por
ter sido ela receptiva ao impacto destrutivo se dissera antes que poderia ir
para o acostamento e no final acabou por não ir... Em outro momento Cristianne
revive o barulho do pneu batendo no teto do carro e chora colocando a mão em sua
cabeça quando relembra do rombo provocado no carro com o pneu batendo na cabeça
de seu irmão tirando-lhe, de imediato, a vida. Diz ver seu irmão caindo morto
com a cabeça em seu colo e sentindo angustia e desespero pela impotência de não
poder fazer algo para trazê-lo de volta a vida. Lembra-se das mesmas reações de
todos diante ao fatídico e inusitado momento.
Sente-se totalmente desamparada. Numa aflição desmedida pelo
desespero causado começa a ter vontade de quebrar tudo ao seu redor. Lembra-se
ter tido vontade de sair correndo e de nunca mais parar de correr na vida.
Pareceria Forest Gump. Percebeu, em verdade, que depois do acidente nunca mais
parou de correr. Situações que a faziam parar, de alguma maneira a frustravam em
sentimento de impotência e a remetiam ao desespero. Ouviu uma sirene tocar e a
ambulância chegar e associou sua violência de determinados momentos com o
barulho daquela sirene do resgate no dia do acidente.
Observa, quando se sente impotente, é como se ouvisse a sirene da
ambulância dentro de si e o desespero a toma e ela nessa vez e nas outras em que
se sente impotente tenta frenética e alucinadamente resolver a situação, seja
qual for e assim, na maioria das vezes, age impulsivamente e às cegas. Fica
perplexa ao se dar conta de tudo isso. Percebe seu desejo de ter feito algo
diferente naquela hora. Lembra-se de situações limites com impacto de soluções
das coisas e, desenfreada pela angustia meteu os "pés pelas mãos", ansiosa e com
medo de novamente não dar conta da situação.
Paradoxalmente, se viu
deveras acelerada durante todos os anos do pós-acidente, deixou de perceber
quantas vezes passou por cima das próprias percepções sendo e permitindo outros
serem lesivos em suas condutas e com ela mesma. Lembrou-se de inúmeras situações
onde se imaginou super potente passando por cima dos seus próprios sentimentos.
Como suposta heroína de si mesma, correu sérios riscos tanto em atitudes
impulsivas como naquelas em que passava por cima de si mesma. Notou um
descompasso em seus ritmos internos.
No final e após atravessar inúmeras
cenas elucidativas, Cristianne revela estar muito cansada. De súbito se vê numa
praia com sua filha e o seu namorado. O dia está ensolarado e todos se divertem.
Repentinamente o céu vai escurecendo e arma-se um temporal daqueles. Olham para
o céu antes azul e observam inúmeras nuvens escuras se avolumarem. Mais alguns
instantes, raios e trovões surgem subtraindo-lhes o relaxamento e a alegria que
desfrutavam. Começam a recolher seus pertences para abrigarem-se em local
seguro. Sua filhinha, com medo começa a chorar. Num lapso de instante Cristianne
é impelida a ficar nervosa pretendendo aquietar os incômodos medos da
criança.
Na seqüência lembra-se de não ser lesiva a ninguém nunca mais, e
ainda, com receio da tempestade inusitada, Cristianne pega no colo sua filhinha
acolhendo-a e oferecendo-lhe carinho e segurança, permitindo, assim, que a mesma
sentisse seus medos e inseguranças inerentes a todo ser humano. Na próxima cena,
seu namorado abraça as duas e começa a chover torrencialmente. Os três começam a
rir e sem tirar o foco de uma possível encrenca com a chuva forte caindo, agem
de imediato correndo para casa.
Este foi o final do EMDR de Cristianne.
Após o reprocessamento checamos novamente todos os conteúdos em relação à cena
inicial e concordamos estar tudo pronto! No final, Cristianne, ainda elaborando,
observa, mesmo considerando todo o ocorrido no acidente com seu irmão, de toda a
fatalidade experimentada, ela estava viva e a tempestade já havia passado e ela,
Cristianne, tem toda uma vida pela frente...
Na semana seguinte,
Cristianne retorna a consulta e relata dois momentos de situações limites que
normalmente a levariam ao stress anterior conhecido, conta ser invadida por
pensamentos apaziguadores lembrando-lhe de não haver mais necessidade de se
desesperar. Tudo estava certo.
Durante o reprocessamento em EMDR ocorrem
inúmeras situações de percepção inusitadas. É indescritível descrever a riqueza
de detalhes envolvidos na reformulação de situações encapsuladas muitas vezes
existentes, onde sequer imaginamos suas extensões e como e quais maneiras
poderiam afetar nossas vidas, nossas condutas e nossos humores. Poder nos
habilitar e rumar com liberdade sem sermos reféns de aspectos obscuros torna
nossas vidas muito mais vividas e instigantes para nós mesmos.
Imaginem
ao realizar procedimentos em EMDR ou Brainspotting o nosso Eu atual
simultaneamente assiste e participa da liberação de situações mal resolvidas.
Nas próximas oportunidades, com anuência de outros pacientes do meu
consultório contarei um caso surpreendente de uma situação de impulsividade em
comer conteúdos de latas de leite condensado, resolução e acesso aparentemente
de cunho espiritual. Você decidirá se, de fato trata-se de obsessão espiritual
desfeita pela própria paciente com a ajuda do EMDR ou se foi apenas um caso
simbólico emocional plenamente resolvido (depois de mais de 20 anos sem
resolução convencional) ou talvez, se a resolução se passou por esses dois tipos
de entendimentos...